quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DESTINO OU ACASO?






foto - Thymonthy Becker Comunicação
Faz algum tempo que nosso fogão deixou de ser movido a serragem. Agora eh a lenha como a maioria dos fogões. Muitas vezes meu pai compra a lenha, mas outras vezes ele busca lenha nas proximidades de uma cachoeira que fica uns 10 km de nossa casa. Ele fez um carrinho de madeira de duas rodas, na verdade se parece mais com um caixote gigante com rodas e o varal para ser puxado. Ele enchia o carrinho de lenha para levar pra casa. Mas ele nunca ia sozinho. Sempre levava dois ou três filhos para ajudá-loMelhor dizendo, sempre me levava e mais um ou dois irmãos meu. A gente saía sempre de manhãzinha, no sábado, porque ele não trabalhava aos sábados, logo depois do café da manhã, isto por volta das 07h00min. Voltava sempre por volta das 14h00min com o carrinho cheio e agente com muita fome e quase sem forças, porque tínhamos que puxar e carrinho até em casa.
Foi em uma destas "aventuras" de buscar lenha que a vida me deu a terceira chance.
Meu pai buscava lenha na cachoeira, porque vinham muitos trocos de árvores, derrubados por enchentes ou outro motivo e ficavam presos na cachoeira. Nesta cachoeira, havia uma espécie de lago que meu pai chamava de bolsão de águaParte da água caía neste bolsão e saia por uma espécie de corredor e se juntava ao rio que continuava depois da cachoeira. Era uma cachoeira pequena, mas com muitas pedras.
Um tronco de árvore relativamente grande estava preso nas pedras quase que caindo neste bolsão. Meus irmãos estavam pela região procurando madeira para levarmos para casa. Meu pai então teve a idéias de jogar este tronco de árvore neste bolsão de água. Mas se ele simplesmente o jogasse, não daria tempo de dar a volta, pular na água e segurar o tronco. Ele certamente seria levado para o rio e assim teria perdido a madeira que, depois de cortada,  seria o bastante para encher o carrinho. Meu pai então teve a idéia de colocar as bóias salva vidas em meus braços e usando uma corda relativamente comprida, amarrou uma ponta no meio do tronco e a outra ponta em minha cintura. Disse que iria empurrar o tronco e assim que o tronco caísse na água, eu deveria pular. Disse ele que não tinha perigo de eu afundar porque estava usando as bóias salva-vidas no braço e o tronco por ser madeira não afundaria. Que era só para eu não deixar o tronco ir embora até que ele desse a volta nas pedras e pulasse ao meu encontro. E assim ele fez. Com muito esforço conseguiu empurrar o tronco que caiu naquele bolsão de água. Pulei logo em seguida. Mas não saiu como ele planejou.
foto - ?
O tronco afundou, talvez por ser madeira verde, não sei o motivo e me levou para o fundo com ele. A corda não era suficiente para me deixar fora d'água com o tronco no fundo. Quando meu pai chegou à beira deste bolsão e não me viu, segundo ele, gritou por meus irmãos e pulou. Eu estava preso na corda e não conseguia subir. Meu pai tentou puxar o tronco para cima com a corda, mas não conseguiu, tentou então desamarrar a corda de minha cintura, mas precisou tomar fôlego e subiu à superfície. Nisto meus irmãos estavam ali procurando por ele. Vendo o que estava acontecendo pularam na água também. Assim, meu pai e meus irmãos conseguiram soltar a corda da minha cintura e me levaram para fora d'água. Mas eu já estava sem vida.
Mais uma vez, meu pai desesperado, meus irmãos idem, tentando me reanimar. Mas desta vez estava sendo em vão. Até que meu pai deu um murro com tanta força em meu peito que trincou o osso. Mas foi o que ele precisava, me trouxe de volta mais uma vez.
Acabou que eu vim dentro do carrinho, não estava conseguindo andar nem respirar direito, devido à dor forte no peito.
Fiquei um bom tempo de repouso até que o osso do peito ficasse curado. Era o xodó da minha mãe neste período. Dava-me tudo que eu queria.
Depois deste acontecimento, meu pai não mais buscou lenha. Toda lenha que passou a usar era comprada de um sitiante que a despejava em nosso portão, A gente só tinha mesmo o trabalho de guardá-la próximo ao fogão a lenha.   
Esta foi a terceira chance que a vida me deu. Seria meu destino ser levado pelas águas ou tudo não passou de mero acaso? 


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