A TRAVESSIA








Sempre ouvi dizer que vida costuma dar uma segunda chance para muitas pessoas. Mas comigo a vida extrapolou. Já meu deu a quarta chance. A vida insiste em que eu fique. Mas os atos pressionam para que eu vá.
Minha segunda chance aconteceu quando ainda era um garoto. Acredito que tinha uns oito anos. Foi assim:
Meu pai sempre foi pescador, desde moço. Pescava nos lagos e rios da região. Muitas vezes levava consigo um filho ou dois para estas "aventuras" de pescador. Numa certa vez, ele me levou e meu irmão mais velho. Em busca do local ideal, que ele já até sabia aonde, íamos de bicicleta ou a pé mesmo. Nem sempre era longe, para ele ou meu irmão maior, mas para mim era distante demais.
Numa destas idas a pé, a gente tinha que atravessar um largo rio que deveria ter uns 15 ou vinte metros de largura. Porém, podia-se andar neste rio, com a água na cintura mais ou menos, boa parte de suas margens. Somente o meio do rio que não dava pé e era preciso nadar. Meu pai era nadador exímio e meu irmão também nadava muito bem. Eu, claro, não tinha a menor noção do que seria nadar. Como eu era mais lento para andar, ia ficando para trás com relação ao meu pai e irmão. Quando meu pai se aproximou deste rio, no local que ele já estava acostumado a atravessar, pediu ao meu irmão que me colocasse nos ombros e atravessasse o rio comigo. E foi na frente. Meu irmão me esperou, colocou-me nos ombros e foi atravessar o rio. De medo, me agarrei no pescoço dele que ficava reclamando que eu o estava enforcando. Mas foi caminhando rio adentro já que podia se andar boa parte dele. Mas quando chegou à parte que precisava nadar, meu irmão bem que tentou, mas não conseguiu devido estar me carregando. Nisto afundamos os dois.
Meu pai que ia um pouco distante, disse ele, que sentiu que meu irmão não conseguiria atravessar comigo e voltou. Quando voltou, já de longe viu a gente afundando. Veio correndo para nos salvar e atirou-se no rio e mergulhou para nos buscar. Quando meu pai me pegou, meu irmão conseguiu subir à superfície e saiu do rio. Mas eu já estava sem vida.
Meu pai desesperado, meu irmão também, colocou-me na areia e foi tentar me reanimar a qualquer custoFazendo massagens no peito, respiração boca-a-boca, tapas no meu rosto. Fazendo tudo isto enlouquecidamente conseguiu me reanimar e voltei a vida.
Meu pai esperou eu me recuperarme colocou em seus ombros para atravessar o rio de volta para irmos pra casa. Eu não queria ir de jeito nenhum, mas ele disse que podia confiar nele que nada ia acontecer comigo. E assim foi. Atravessou o rio nadando comigo nos ombros e voltamos pra casa.
Até onde eu sei, nunca mais voltei àquele local. Nem sei precisar onde fica.
Esta foi a segunda chance que a vida meu deu. Segunda de duas outras.
Te lembras disto meu irmão?

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